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SEGUNDA VIAGEM MISSIONÁRIA DE PAULO

Os gentios de Antioquia da Síria receberam a carta expedida pelo Concílio de Jerusalém com satisfação, uma vez que teriam de observar apenas algumas recomendações da Lei, abstendo-se da circuncisão, da prostituição e da carne sufocada. Essas questões haviam causado atrito entre os apóstolos e alguns fariseus convertidos. Após intenso debate, os anciãos da Judeia enviaram Silas e Judas – representantes da Igreja de Jerusalém – até Antioquia na companhia de Paulo e Barnabé, a fim de que confirmassem as palavras do decreto aos convertidos de lá (Atos 15:22-35).

Lucas, o escritor do livro de Atos nos diz que “algum tempo depois” (Atos 15:36) Paulo conversou com Barnabé sobre o retorno às igrejas que eles haviam estabelecido nas cidades visitadas em sua primeira viagem. Não fica claro quanto tempo havia se passado exatamente, mas provavelmente foram vários meses. À medida que o outono e o inverno davam lugar à primavera, a neve nas estradas derretia e as rotas de navegação voltavam à atividade.

O ar fresco da primavera revigorava o desejo de Paulo de ver como os novos crentes estavam se saindo e de incentivá-los com as notícias do decreto do Concílio de Jerusalém. A carta dos apóstolos fora dirigida especificamente aos crentes em Antioquia, Síria e Cilícia (Atos 15:23). Paulo se importava profundamente com essas novas igrejas, compostas predominantemente por gentios que haviam depositado sua fé em Cristo.

Agora que os apóstolos e presbíteros em Jerusalém haviam confirmado formalmente o que Paulo havia ensinado a eles o tempo todo, o apóstolo estava ansioso para compartilhar a carta do concílio com eles e encorajá-los ainda mais em sua fé. Barnabé concordou com o plano de Paulo, mas queria mais uma vez levar João Marcos junto.

João Marcos havia abandonado Paulo e Barnabé, bem no meio de sua primeira viagem, depois que deixaram Chipre e quando estavam prestes a fazer a longa e difícil viagem à Galácia (Atos 13:13). Paulo achou que não era sensato levar João Marcos, o que Lucas não registra detalhes desse problema.

Barnabé, em contrapartida, foi fiel à sua natureza de encorajador, que acreditava em dar outra chance às pessoas. O conflito entre Paulo e Barnabé sobre a possibilidade da ida de João Marcos se transformou em um “desentendimento sério” (Atos 15:39), e isso resultou em duas frentes missionárias. Barnabé voltou para Chipre com João Marcos, e, a partir daí, desaparece da narrativa de Atos, e Paulo vai montar uma outra equipe ministerial para a viagem, a princípio escolhendo Silas como novo parceiro desta segunda missão e posteriormente convidando Timóteo para acompanhá-los e também Lucas para compor a equipe. (Atos 15:39-40). Judas por sua vez retornou a Jerusalém, e Silas decidiu permanecer na Síria e acompanhar Paulo nessa segunda viagem.

Embora a separação entre Barnabé e Paulo indique uma lamentável ruptura em sua parceria ministerial, o resultado dela foi positivo porque houve uma expansão da missão: eles puderam cobrir um território maior com duas frentes missionárias.

Também é digno de nota que, a despeito de quaisquer ressentimentos que possam ter ocorrido durante essa separação, eles foram de curta duração para Paulo, pois, em suas cartas posteriores, ele fala bem de Barnabé e Marcos. Na verdade, Marcos acabaria por se juntar ao ministério de Paulo como um companheiro valioso (Colossenses 4:10; 2 Timóteo 4:11; Filemon 24).

Paulo tinha conhecido a Silas quando o Concílio de Jerusalém onde escolheram para acompanhar Paulo e Barnabé, junto com Judas à Antioquia, a fim de entregar a resolução do concílio quanto aos conflitos que os tinha levado a Jerusalém. Silas, profeta, mestre capacitado, cidadão romano e judeu de Jerusalém que apoiou plenamente a decisão de incluir os gentios.

Como Silas já tinha sido recomendado como representante pelos líderes da igreja de Jerusalém, ele seria a pessoa perfeita para ajudar a encorajar os crentes gentios da Cilícia e da Galácia. (Atos 15:40).

Paulo e Silas partiram de Antioquia da Síria e viajaram rumo ao norte, passando pela cidade de Alexandria da Síria (atual Iskenderun, na Turquia) e depois viraram para oeste, ao longo da estrada que atravessava as cidades de Mopsuéstia e Adana, antes de chegarem a Tarso.

Como na primeira viagem tinham passado por Chipre, cidade natal de Barnabé, o qual dominava muito bem sua geografia, agora, vão rumo a Tarso, cidade natal de Paulo.

De Tarso, eles atravessaram os escarpados montes Tauro, nos Portões da Cilícia (atual Passo de Gulek, que fica cerca de 1000 metros acima do nível do mar), a principal passagem que liga a Anatólia Central à Cilícia, à Síria e ao Oriente. A passagem serpenteia ao longo dos vales dos rios Çukit e Kirkgeçit, entre os picos do monte Medetsiz e do monte Karanfil.

Depois de cruzar os Portões da Cilícia para entrar na província da Capadócia, Paulo e Silas continuaram seguindo na direção leste até Derbe, cidade que Paulo e Barnabé haviam visitado antes (Atos 14:6). A distância de Tarso a Derbe era de cerca de 240km e levava quase uma semana para o viajante a pé. Lucas menciona especificamente apenas a visita a Derbe e, depois, a Listra (Atos 16:1), mas Paulo planejava também revisitar outras cidades da Galácia, como Icônio e Antioquia da Pisídia (Atos 16:3). Essas cidades eram isoladas e menos influenciadas pela cultura greco-romana do que as da costa do mar Egeu. A população mantivera os costumes e os idiomas locais, apesar de o grego ser a língua “comum” e o latim, a oficial”. Respaldado pela carta do Concílio de Jerusalém, ele teria desejado encorajar ainda mais todos os crentes gálatas. Lucas registra o êxito de seu ministério relatando que as igrejas foram fortalecidas e cresciam diariamente em número (Atos 16:5).

Enquanto esteve em Listra (cidade em que Paulo tinha sido apedrejado na viagem anterior), Paulo foi apresentado a um jovem discípulo chamado Timóteo (Atos 16:1). Timóteo era fruto de um casamento misto entre uma mãe judia e um pai grego, natural desta cidade. Havia uma escassa população judia em Listra, de modo que as opções para a mãe de Timóteo se casar dentro da comunidade judaica foram poucas. Como Listra era uma colônia romana, a maioria dos homens disponíveis para o casamento era de colonos e soldados romanos. Registros indicam que, em Listra, os colonos e os soldados frequentemente se casavam com mulheres locais. O pai de Timóteo era gentio, mas sua mãe, Eunice, e sua avó, Loide, criaram-no na fé judaica (2 Timóteo 1:5). Mais tarde Paulo o chama de seu “filho amado e fiel” (1 Coríntios 4:17) e seu “verdadeiro filho na fé” (1 Timóteo 1:2), o que indica que o apóstolo foi diretamente responsável pela sua conversão. Timóteo era muito estimado por todos os crentes em Listra e na vizinha Icônio (que ficava a cerca de 30km de distância). Paulo também sugere a existência de declarações proféticas sobre o plano de Deus para Timóteo e do dom espiritual que lhe foi dado para realizar esse plano (1 Timóteo 4:14; 2 Timóteo 1:6).

O apóstolo ficara impressionado com Timóteo e o via como o candidato perfeito para a função de colaborador na missão. Timóteo era semelhante a Cristo: altruísta, confiável, dedicado, bondoso e gentil; alguém em quem Paulo podia confiar plenamente para representar seus interesses e ensinar fielmente o Evangelho (Filipenses 2:19-22; 1 Timóteo 1:3; 2 Timóteo 2:2). Ele não somente tinha o caráter e os dons necessários para o ministério, mas também podia transitar bem pela complexa matriz social entre gentios e judeus. O único problema, entretanto, era que ele nunca seria aceito pelas comunidades de judeus enquanto não fosse circuncidado. Assim, Paulo fez a escolha estratégica de o circuncidar, mas isso não se relacionava, de modo algum, com a salvação de Timóteo. Como sua mãe e sua avó eram judias, o status de Timóteo perante os judeus e os gentios permanecia ambíguo e, portanto, problemático para o ministério em ambas as comunidades, até que Paulo o ajudou a definí-lo.

 

Paulo tinha dois objetivos nessa segunda viagem missionária. O primeiro era pastoral, pois queria revisitar as igrejas que ele e Barnabé haviam estabelecido algum tempo atrás, a fim de compartilhar o relatório do Concílio de Jerusalém e lhes levar mais ensinamentos. O segundo objetivo era evangelístico – expandir o evangelho ainda mais para a Ásia Menor. Como Paulo preferia se concentrar em capitais como Tarso (Cilícia), Antioquia (Síria), Pafos (Chipre) e Perge (Panfília), seu próximo alvo era Éfeso (Ásia Menor).

Paulo, Silas e Timóteo provavelmente viajaram para as cidades de Icônio e Antioquia da Pisídia. No entanto, Lucas não as menciona especificamente no itinerário que fornece. Em vez disso, ele afirma que eles “passaram pela região da Frígia e da Galácia, e foram proibidos pelo Espírito Santo de pregar a palavra na Ásia”. Atos 16:6.

A Palavra não explica por que Deus os impediu de pregar naquele momento, mas Jerônimo, um sacerdote cristão do século 4dC., afirmou que Pedro chegara àquela região por volta do ano 42dC, muito tempo antes dessa viagem missionária de Paulo, iniciando igrejas naquele local.

A Frígia e a Galácia não eram dois lugares diferentes, mas descreviam uma região maior, conhecida como Frígia-Galácia. Eles devem ter passado pelas cidades de Icônio e Antioquia da Pisídia quando se dirigiam para Éfeso. Essas duas cidades eram consideradas parte da Frígia, até serem incorporadas à província da Galácia.

Paulo, Silas e Timóteo devem ter viajado pela Frígia-Galácia rumo à Ásia e ao vale do rio Lico, seguindo na direção de Éfeso. A estrada principal que saía de Antioquia da Pisídia passava pelas cidades de Colossos e Laodiceia, no vale do rio Lico, até se fundir com outra estrada que os levaria a Éfeso. A rota tinha cerca de 531Km e, se o Espírito Santo não interviesse para demover Paulo e os companheiros de seu plano, eles teriam levado mais de uma semana em viagem (Atos 16:6).

 

Em todo o livro de Atos, Lucas sempre associa o trabalho dos apóstolos e a propagação do Evangelho à direção e capacitação do Espírito Santo. Esse relato no capítulo 16 é um dos exemplos mais claros em que o Espírito guia a missão de Paulo. Curiosamente, essa orientação assume a forma de manter Paulo fora da Ásia Menor. Seja qual for o meio usado pelo Espírito para impedi-los, eles souberam que seguir para Éfeso naquele momento era contrário à vontade divina. Deus tem uma maneira de realizar seus bons propósitos, mesmo que o faça bloqueando os caminhos que pretendemos seguir.

Como o Senhor obstruiu seus planos de evangelizar a Ásia Menor, esperando um sinal da parte do Senhor para prosseguirem, contornaram o lugar e rumaram para o norte em direção à Bitínia, mas não puderam anunciar as Boas-Novas ali também. Tudo nessa passagem demonstra como Deus dirigia o ministério do apóstolo. Paulo não escolhia os locais para onde ia independentemente de Deus. Em vez disso, ele simplesmente procurava evangelizar em áreas ainda não alcançadas pelo Evangelho (Romanos 15:20; 2 Coríntios 10:16). A Bitínia se localizava na região noroeste da Anatólia (atual Turquia). Fazia fronteira com o mar Negro ao norte e com a Ásia Menor no canto sudoeste. Provavelmente Paulo planejava evangelizar Nicomédia, capital da Bitínia, mas ele também teria visitado Niceia e Calcedônia.

Paulo, Silas e Timóteo já estavam na chamada província da Ásia quando o Espírito os impediu de ali pregar a palavra. Esse obstáculo provavelmente ocorreu em Apameia (atual Dinar), a primeira cidade a que eles teriam chegado na província da Ásia. De Antioquia da Pisídia, teriam caminhado para o sul, pela Estrada Imperial, até chegarem à Estrada do Sul, que os levaria a Éfeso. Enquanto caminhavam pela estrada íngreme, construída em zigue-zague, é possível que tenha visto um marco de pedra indicando que haviam cruzado da Galácia para a província da Ásia. A cidade de Apameia era um importante centro comercial para os mercadores que viajavam entre o Oriente e o Ocidente, pois era por ali que a rota cortava as montanhas até o planalto da Anatólia Central, facilitando a travessia das montanhas.

Quando decidiram ir para a Bitínia, Paulo e os companheiros continuaram seguindo para o noroeste até a encruzilhada principal em Dorileia, uma cidade perto da fronteira provincial entre a Ásia e a Bitínia. Sua rota os conduziu ao longo de rios, planícies e vales situados entre majestosos picos de montanhas, e eles teriam parado para pernoitar em cidades ao longo do caminho. Dorileia estava localizada na junção de cinco importantes estradas e provavelmente era por onde esperavam entrar em Bitínia. No entanto, os planos de Paulo foram novamente redirecionados por intervenção divina (Atos 16:7). Lucas diz que o “Espírito de Jesus” não os deixou pisar na Bitínia, nem sequer lhes permitiu entrar na província. Como antes, ele não informa como essa proibição lhes foi comunicada, mas a ligeira mudança na redação da expressão para “Espírito de Jesus” pode sugerir um “senso interno que os inibiu”.

A caminho da Bitínia, Paulo, Silas e Timóteo ainda estavam tecnicamente na Ásia Menor. Em algum lugar perto da cidade de Cotieu (Cotiaeum, em latim), eles atravessaram da Frígia para a Mísia (Atos 16:7). Assim como a região conhecida como Frígia se estendia por partes da Galácia e da Ásia, também a Mísia, cujo nome refletia um período anterior da história, quando era um reino independente, era uma região da Ásia, localizada no noroeste da Ásia Menor, que se estendia até o mar Egeu e incluía ao oeste Troade – território onde a cidade de Tróia (atual Çanakkale, na Turquia) estava localizada. Essa era uma importante cidade litorânea e o principal porto do noroeste da Ásia Menor, onde viviam cerca de 100 mil pessoas.

 

Visto que seus planos foram novamente redirecionados por Deus, Paulo e os companheiros continuaram a seguir para o oeste, em direção à costa e à cidade de Alexandria de Trôade (Atos 16:8). Embora Lucas apenas sinalize que eles viajaram através da Mísia para Alexandria da Trôade, eles teriam andado cerca de 500km por terra. Além disso, Trôade não era um destino fácil de alcançar de onde eles partiram. Então, parece que a escolheram de forma deliberada, e não se ativeram simplesmente à rede de rotas oficiais designadas como estradas romanas. Por que eles escolheram Trôade é incerto, mas parece provável que, uma vez que seu caminho na Ásia fora bloqueado, eles estivessem pensando em levar o evangelho para a Grécia.

Alexandria da Trôade mostrou ser a escolha certa, pois ali Paulo teve uma visão durante a noite em sonhos com um homem da Macedônia que lhe suplicava que viesse ajudá-los, uma confirmação de que Deus o estava chamando para a Grécia (Atos 16:9). Trôade era uma importante e bela cidade portuária voltada para as águas cristalinas do mar Egeu, no canto noroeste da Ásia Menor. Sua localização fez dela um porto estratégico para o comércio marítimo entre os mares Mediterrâneo e Negro. Embora, na história, tenha sido muitas vezes ofuscada e confundida com a cidade vizinha de Tróia, Alexandria da Trôade foi a maior cidade daquele área, com sua população considerável. Sua ascensão ocorreu por volta de 300 aC., quando Lisímaco, um dos generais de Alexandre, o Grande, renomeou a cidade em homenagem a Alexandre e construiu ali um excelente porto. A cidade portuária controlava a passagem do mar Egeu para o mar Negro e proporcionava uma passagem marítima direta da Ásia para a Macedônia, tornando-se a rota marítima mais curta entre esses dois pontos. Dada a sua localização, seus ventos também eram favoráveis e facilitavam as viagens marítimas na região.

Enquanto Paulo, Silas e Timóteo caminhavam para Trôade, pela estrada de terreno levemente inclinado, repleto de vegetação e de troncudos carvalhos da Valônia, imagino que seus olhos dançavam diante da beleza dos reluzentes edifícios de mármore branco cujo pano de fundo era o mar Egeu. Essa era a primeira vez que Paulo via o Egeu, e seu pulso deve ter se acelerado ante as possibilidades.

Durante semanas, eles procuraram novos lugares em que pudessem compartilhar o Evangelho e, pouco depois de chegarem a Alexandria da Trôade, Paulo sonhou com um homem da Macedônia, o que finalmente lhes deu uma direção clara.

Lucas registra que “logo empreendemos esforços para partir para a Macedônia, concluindo que Deus nos havia chamado para lhes pregar o evangelho”. Atos 16:10.

Curiosamente, nesse ponto a narração faz uma mudança significativa de “eles” para “nós”, indicando que foi em Trôade que Lucas se juntou a Paulo, Silas e Timóteo.

Lucas não fornece detalhes sobre como encontrou Paulo ou por que se juntou a eles. Ainda que seus escritos – o Evangelho Segundo Lucas e o Livro de Atos – constituam um terço do Novo Testamento, pouco se sabe com certeza sobre ele. Apesar de aparecer de forma um tanto repentina em Atos, ele se torna um dos amigos mais queridos de Paulo e um de seus mais confiáveis companheiros de trabalho, dando uma grande contribuição literária, pois seu olhar detalhista e sua elevada educação foram de grande importância para a narrativa de seus livros. Provavelmente ele era um crente gentio, que se junta à equipe missionária nessa cidade.

Algumas tradições afirmam que ele havia nascido em Antioquia da Síria (Colossenses 4:11, 14) e pertencia à igreja de lá.

Outra possibilidade é que Lucas fosse de Filipos, na Macedônia, especialmente em razão da grande atenção que ele dedica a esse local (Atos 16:11-40), o que poderia explicar por que acompanhou Paulo até lá. Em Filemom 24, Paulo se refere a Lucas, ao lado de Marcos, Aristarco e Demas, como ‘meus cooperadores”, o que significa que o apóstolo passou a considerá-lo um parceiro de igual para igual no ministério.

Na Carta aos Colossenses, Paulo se refere a ele como “Lucas, o médico amado” (Colossenses 4:14). Como as pessoas em Colossos o conheciam como médico, é possível que Lucas tenha estudado e praticado seu ofício na escola de medicina da vizinha Laodiceia (a cerca de 16km de distância), que também se especializara no tratamento de certos tipos de doenças oculares. Talvez Lucas tenha frequentado, primeiro, o curso de medicina em Filipos, já que ali também havia uma famosa escola de medicina. A princípio, Paulo pode ter convidado Lucas para se juntar a eles como seu médico pessoal O cuidado e a amizade que Lucas dedicava a Paulo também são vistos na forma pela qual ele permaneceu ao lado de Paulo durante suas prisões (Atos 27:1; 2 Timóteo 4:11). Segundo tradição cristã, o evangelista Lucas faleceu aos 84 anos em Boécia, na Grécia.

À luz das primeiras horas do amanhecer, Paulo, Silas, Timóteo e Lucas caminharam ao longo da calçada de paralelepípedos do porto para embarcar no navio com destino a Neápolis, na Macedônia. Eles não cabiam em si de entusiasmo, por saberem que estavam indo exatamente para onde Deus queria que fossem.

Paulo caminhara perto de 1.600km de Antioquia da Síria até Alexandria da Trôade. Na primeira metade da jornada, ele cumpriu com êxito o objetivo de visitar as igrejas na Galácia, a fim de encorajá-las. No entanto, no momento em que decidiu fazer um novo trabalho evangelístico na Ásia, houve uma frustrante reviravolta em sua jornada, repleta de obstáculos espirituais. Contudo, mesmo nas decepções e perambulações por quilômetros intermináveis de estradas, Paulo estava aprendendo lições valiosas sobre a vontade e a orientação de Deus.

Deus chamou Paulo para pregar o Evangelho aos gentios e incutiu nele o desejo de ir a lugares em que nunca estivera. Ele planejou aonde ir com sabedoria estratégica, mas, na prática, Deus ainda governava seus passos e destino. O apóstolo era lembrado da lição que aprendera na estrada para Damasco – Deus regularmente interrompe e redireciona nossos planos para cumprir seus bons propósitos. Andar pela fé significa ir, mesmo que Deus não revele seus planos até que já estejamos em movimento. Com a costa da Ásia Menor encolhendo atrás deles, a distância, Paulo descansava na confiança de que uma porta se abriria na Macedônia. 2 Coríntios 2:12.

A rota de Alexandria da Trôade a Neápolis era muito popular, oferecendo um percurso mais rápido entre os continentes da Ásia e da Europa, que cortava diretamente 240km de mar aberto, com a ilha de Samotrácia no horizonte, cujas montanhas se elevam a mais de 1.500 metros acima do nível do mar.

Provavelmente as condições eram ideais para essa viagem marítima, pois Lucas nos diz que eles chegaram a Samotrácia no primeiro dia e a Neápolis no segundo (atual Kavala, na Grécia). Atos 16:11.

A viagem de dois dias foi incrivelmente rápida, considerando que a rota inversa, de Neápolis a Trôade, levaria cinco dias quando, mais adiante, Paulo navegar esse trajeto em suas viagens. Atos 20:6.

O apóstolo e os companheiros chegaram durante a noite ao porto que ficava no extremo norte de Samotrácia. No dia seguinte, desembarcaram em Neápolis. Neápolis servia de porto para a cidade de Filipos, que ficava a cerca de 16km a noroeste, ao longo da estrada conhecida como Via Egnácia no rio Gangites, a principal estrada que ia de leste a oeste e atravessava a Macedônia. Ela começava em Dirráquio (moderna Durres, na Albânia), que fica na costa do mar Adriático, na província romana do Ilírico, e se estendia até Bizâncio (moderna Istambul, na Turquia), o que fazia dela a mais importante ligação entre Roma e as províncias orientais. A chegada de Paulo a Neápolis sugere que ele planejava ir, depois de sonhar com o macedônio, especificamente a Filipos.

 

Seguindo pela Via Egnácia, Paulo, Silas, Timóteo e Lucas atravessaram os portões de Filipos. A cidade foi construída sobre uma colina, e havia pântanos e um lago ao sul, desfiladeiros íngremes a leste, densas florestas ao norte e férteis e exuberantes planícies a oeste. Ela também estava localizada muito perto do monte Pangaion, que contribuía para a riqueza da cidade com suas produtivas minas de ouro e de prata, nas quais ocasionalmente se encontravam pedras preciosas. Embora Filipos fosse relativamente pequena, com uma população entre 5 mil e 15 mil habitantes, era uma cidade influente e famosa por seu status, agricultura, riqueza e história ilustre.

Lucas se refere a Filipos como “colônia romana” e “a cidade principal (ou a primeira cidade) do distrito da Macedônia” (Atos 16:12). Seu nome deriva de Filipe II da Macedônia, pai de Alexandre, o Grande, que conquistou a cidade de Krenides, em 356aC., e mudou seu nome para Filipos, em homenagem a si mesmo. A cidade cresceu e ganhou destaque na Macedônia quando se tornou colônia romana, depois que Marco Antônio e Otávio Augusto derrotaram Bruto e Cássio na Batalha de Filipos, em 42aC., tornando-se destino de muitos veteranos, soldados aposentados do exército, isento de impostos. Como colônia romana. Havia um núcleo considerável de cidadãos romanos, e, sendo uma cidade livre e isenta de impostos, eles podiam se autogovernar como uma extensão da própria Roma. Na época da visita de Paulo, a população da colônia incluía esses veteranos do exército romano e seus descendentes, gregos nativos, comerciantes que migraram para lá e um pequeno contingente de judeus da Diáspora.

O relato do ministério de Paulo em Filipos é o registro mais longo de todo o seu trabalho missionário durante a segunda viagem. Apesar da quantidade de detalhes e da atenção dedicada ao ministério paulino na cidade, é difícil determinar exatamente quanto tempo ele ficou por lá, uma vez que Lucas diz somente que eles permaneceram por “alguns dias” (Atos 16:12). Considerando que grande parte de seu ministério teria ocorrido no sábado, podemos supor que esses “alguns dias”, na verdade, estão mais para algumas semanas (Atos 16:13). Ao chegarem à cidade, Paulo e os companheiros passaram os primeiros dias se instalando, encontrando um lugar para se hospedar e, talvez, montando um ponto para vender suas tendas no mercado. De acordo com seu padrão habitual de levar o evangelho aos judeus primeiro, Paulo provavelmente perguntou por uma sinagoga local ou outro lugar em que os judeus se reuniam para prestar culto. Romanos 1:16

Tão escassa era a presença de judeus em Filipos que não era suficiente para justificar uma sinagoga oficial. De acordo com a tradição judaica, eram necessários no mínimo dez homens para formar uma sinagoga. No entanto, Paulo ouvira falar de um pequeno grupo de judeus e gentios tementes a Deus que se reuniam para orar à beira do rio Gangites. No primeiro sábado após sua chegada a Filipos, Paulo, Silas, Timóteo e Lucas saíram pelos portões da cidade rumo às margens do rio Gangites, que ficava a cerca de 1 1/2km a 3km da cidade. (Atos 16:13). Os judeus que viviam em cidades greco-romanas se reuniam, em geral, fora da cidade, em lugares próximos a cursos-d’água. A água era usada para fazer a lavagem ritual necessária antes de adorar, orar e estudar a Torá.

À beira do rio, Paulo e os companheiros conheceram um grupo de mulheres que se reunia para orar. Embora provavelmente houvesse algumas mulheres judias, apenas Lídia, uma gentia temente a Deus, é especificamente nomeada (Atos 16:14). É possível que Evódia e Síntique fossem duas das outras mulheres que também estavam lá naquela manhã. (Filipenses 4:2-3). O grupo de mulheres deu as boas-vindas a Paulo, que, então, sentou-se entre elas, enquanto discutiam as Escrituras e teologia. Ironicamente, por meio da visão, em sonho, de um homem da Macedônia, Deus havia dirigido os passos de Paulo para longe da Ásia Menor, mas a primeira pessoa convertida por ele na Macedônia de que se tem registro foi uma mulher, Lídia, que era de Tiatira, na Ásia Menor (atual Akhisar, no Oeste da Turquia).

Lídia ouvia com fascínio e atenção tudo o que Paulo dizia, enquanto o Espírito Santo despertava e abria seu coração para que cresse em Jesus (Atos 16:14). Ela não somente é a única pessoa cujo nome Lucas menciona nessa reunião, mas também é a única cujo nome ele registra em todo o relato sobre o ministério de Paulo em Filipos. O fato de Lucas fornecer o nome dela sugere que Lídia tinha certo status, visto que era incomum uma mulher ser mencionada pelo primeiro nome em um contexto greco-romano, a menos que ela fosse célebre. Embora o nome Lídia fosse bastante comum no mundo greco-romano, nesse caso há uma correspondência entre seu nome e sua terra natal, pois Tiatira ficava em um distrito chamado Lídia, na Ásia Menor. Na época em que Lídia conheceu Paulo, ela estava morando em Filipos a negócios, como “vendedora de tecido de púrpura”. Atos 16:14.

A cidade de Tiatira, onde ficava uma das sete igrejas do Apocalipse (Apocalipse 2:18-28), era um famoso centro comercial. Nela havia mais mercadores, artesãos e associações de mercadores do que na maioria das cidades da Ásia Menor. O tecido tingido de púrpura era muito valorizado no mundo antigo pela sua raridade. A púrpura mais cara era colhida do molusco múrex, encontrado no mar Mediterrâneo; em Tiatira, porém, eles usavam a raiz de uma planta chamada garança para fabricar um corante roxo de preço mais acessível. Embora seja possível que Lídia não pertencesse às classes altas da aristocracia local, provavelmente era mais abastada do que a média dos cidadãos de Filipos. A ausência de qualquer menção a um marido indica que ela não era casada, o que sugere que ou nunca fora casada, ou era divorciada, ou, provavelmente, viúva.

Lídia e “os de sua casa” foram batizados no rio, naquela manhã, se tornando assim a primeira pessoa que se converteu a Cristo na Europa. Sua casa incluía quaisquer membros da família e empregados que lá moravam. Após se converter, ela pediu que Paulo e os companheiros se hospedassem em sua casa, uma indicação de que sua fé era legítima (Atos 16:15).

O fato de ela possuir uma casa grande o suficiente para acomodar esses quatro homens aponta que  Lídia era uma mulher de recursos financeiros consideráveis. Sua casa passou a ser a base de operações do ministério de Paulo em Filipos (Atos 16:40), e Lídia tornou-se uma figura importante ao abrigar a incipiente igreja de Filipos em sua casa espaçosa. Ela é um exemplo notável de como as mulheres desempenharam um papel vital no estabelecimento, na liderança e no crescimento do cristianismo primitivo.

Em outro sábado, enquanto Paulo, Silas, Timóteo e Lucas caminhavam para o local de oração, que provavelmente ficava à beira do rio, eles enfrentaram uma batalha espiritual. Foram seguidos por uma jovem escrava que era uma adivinha possuída por um “espírito de Píton” (Atos 16:16). O espírito de Píton segundo a mitologia grega, está relacionado ao oráculo do consulado em Delfos, norte de Atenas na Grécia, onde o deus Apolo matou a serpente gigante, Píton, para vingar sua mãe, Leto fruto de um relacionamento com Zeus. Pessoas de todo o mundo viajavam para lá a fim de receber declarações proféticas do oráculo feminino, que se dizia inspirado pelo próprio deus. No antigo mundo greco-romano, as pessoas frequentemente procuravam esses médiuns para saber o que aconteceria em sua vida ou seus negócios, e estavam dispostas a pagar generosamente por isso. Portanto, essa escrava dava grande lucro a seus senhores.

Quando a jovem viu a Paulo, começou a segui-lo e o fez por vários dias, gritando: “Estes homens, que vos anunciam o caminho da salvação, são servos do Deus Altíssimo”. Atos 16:17.

Embora o que ela dizia estivesse tecnicamente correto, era um artifício para enganar o povo de Filipos e tirar a atenção da verdade da Palavra que estava sendo ministrado por Paulo. Além disso, mesmo que sua declaração fosse correta, Paulo não teria recebido bem o testemunho de um espírito demoníaco. Depois que isso se repetiu por vários dias, o apóstolo ficou irritado e não aguentou mais. Ele se voltou para a jovem escrava duplamente (pois estava possuída por demônios e tinha que dar lucro aos seus donos), Paulo se voltou para ela e expulsou o espírito demoníaco, em nome de Jesus. Atos 16:18. Ela ficou em silêncio imediatamente, enquanto o espírito fugia, por ordem de Paulo. Os senhores da jovem ficaram furiosos com o apóstolo, pois a esperança deles de obter uma renda substancial por meio das adivinhações dela desapareceram com o espírito de Píton.

Assim, esses homens prontamente agarraram Paulo e Silas e os arrastaram para o fórum, localizado no mercado que ficava no centro da cidade. O fórum de Filipos abrangia uma área considerável (70X148 metros) e era cercado a leste, oeste e sul por uma passarela coberta, sustentada por colunas. Ali eles denunciaram Paulo e Silas perante os magistrados da cidade, em uma plataforma elevada e arredondada, conhecida como bema, onde os casos jurídicos eram julgados.

Como colônia romana, Filipos tinha dois magistrados (pretores), nomeados anualmente, que eram acompanhados por um grupo de guarda-costas (lictores). Cada um deles carregava um objeto chamado fasces, composto por um feixe de varas disposto em torno de um machado. Esses guarda-costas eram também os que ministravam os castigos determinados pelos pretores. Os senhores da escrava denunciaram Paulo e Silas, dizendo: “Esses homens estão perturbando gravemente nossa cidade. Eles são judeus e estão promovendo costumes que não são legais para que nós, romanos, adotemos ou pratiquemos”. Atos 16:20-21. Como o exorcismo não era crime, os senhores procuraram punir Paulo e Silas com o argumento de que criaram um distúrbio civil e tentavam converter os romanos ao judaísmo. Em geral, em processos judiciais, era dada a oportunidade ao acusado de se defender das acusações, mas a multidão reunida no fórum se juntou ao ataque contra Paulo e Silas, expressando indignação e ameaçando violência (Atos 16:22). Os magistrados agiram sem demora para aplacá-la e evitar um tumulto.

Como Paulo e Silas eram judeus estrangeiros, os magistrados presumiram que não eram cidadãos romanos e ordenaram que os lictores os espancassem com varas e os prendessem na cadeia. Os lictores prenderam Paulo e Silas e os deixaram completamente nus. O objetivo de desnudá-los era envergonhá-los publicamente e aumentar-lhes a dor golpeando diretamente a pele desprotegida com as varas. Os lictores, então, desataram seus feixes de varas de bétula, ou olmo, e começaram a açoitá-los diante da multidão. O estalo causado pelo impacto da madeira dura na pele macia ecoava repetidamente enquanto eles eram açoitados da nuca até os calcanhares. As costas e as pernas deles ficaram cheias de vergões sangrentos, contusões e cortes em todos os pontos em que foram atingidos (Atos 16:33). Em seguida, foram arrastados para a prisão próxima. O carcereiro, tendo recebido a ordem de “guardá-los cuidadosamente”, colocou-os no “cárcere interior” e acorrentou-lhes os pés a troncos (Atos 16:23-24). O cárcere interior e os troncos eram reservados para os que haviam cometido os piores crimes, para a classe mais vil de criminosos.

Com os corpos doloridos e dilacerados, Paulo e Silas poderiam facilmente ter se deixado levar pelo desespero ou pela indignação em razão da injustiça de sua situação. Em vez disso, porém, adoraram a Deus. Eles transformaram aquela prisão escura e úmida em um santuário de oração e louvor. De todas as coisas notáveis sobre Paulo, essa talvez seja uma das mais surpreendentes. Depois de ser brutalmente açoitado, humilhado publicamente e preso injustamente, sua fé inabalável em Cristo brilhava, radiante, no lugar mais sombrio, enquanto ele oferecia orações e cânticos ao Senhor em alegre entrega. Os outros prisioneiros, que provavelmente estavam afundados em um atoleiro de autopiedade, ouviam atentamente Paulo e Silas, com curiosidade, reverência e admiração. Atos 16:25.

À meia-noite, Deus fez sacudir a prisão com tamanha força que todas as portas se abriram e as correntes de todos os presos caíram (Atos 16:26). O terremoto despertou o carcereiro, que correu para dentro das celas a fim de inspecionar os danos. Vendo que as portas estavam abertas, ele presumiu que os presos haviam fugido sem demora. O carcereiro era o responsável pelos prisioneiros e, se eles escapassem, ele enfrentaria as consequências por estar dormindo quando o terremoto aconteceu. Ele desembainhou a espada e estava prestes a matar toda a sua família e se matar, quando, de repente, a voz de Paulo emanou dos recessos escuros da prisão: “Não se machuque, pois estamos todos aqui!” Atos 16:28. Trêmulo e abalado, o carcereiro pediu algumas tochas, e lá estavam Paulo e Silas, com todos os outros prisioneiros, de pé entre os escombros. O carcereiro trêmulo entrou correndo e caiu de joelhos diante de Paulo. Ele reconheceu claramente o terremoto como um ato divino e entendeu que era o Deus de Paulo em ação; sabendo que diante das leis romanas, ele que deveria cumprir pena se algum dos presos sob sua responsabilidade fugisse, ele questiona como ser salvo daquela pena, e Paulo e Silas aproveita para apresentar a Cristo. Paulo e Silas responderam: “Creia no Senhor Jesus e serão salvos, você e sua casa”. Atos 16:30-31.

Paulo e Silas passaram a anunciar a palavra do Senhor para toda a família do carcereiro, pois provavelmente todos tinham vindo para a prisão depois de serem acordados pelo terremoto (Atos 16:31). O carcereiro compassivamente cuidou das feridas de Paulo e de Silas, lavando-as com água limpa de uma fonte ou cisterna próxima. Antes, ele havia sido estritamente advertido de “vigiá-los com cuidado” e os submetera a um severo tratamento de segurança máxima. Agora, porém, tratava deles com cuidado, como pacientes feridos que precisavam se curar. Logo depois que o carcereiro lavou suas feridas, Paulo e Silas o batizaram e a toda a sua família. Atos 16:32. Cheio de alegria e gratidão por sua recém-descoberta fé e salvação, o carcereiro levou Paulo e Silas para sua casa e lhes serviu uma refeição. Provavelmente eles passaram o restante da noite celebrando e comentando o que o Senhor havia feito.

Ao raiar do dia, os magistrados enviaram os lictores, que atuavam como policiais, para ordenar que Paulo e Silas fossem libertados (Atos 16:35). Não está claro por que os magistrados ordenaram sua liberação; é possível que simplesmente quisessem puni-los para lhes ensinar uma lição. Como ambos realmente não haviam cometido crime algum, os açoites e a noite passada na cadeia seria punição suficiente para as acusações feitas contra eles. O carcereiro ficou feliz em informar a Paulo e Silas que agora eles estavam livres para ir embora. No entanto, quando Paulo ouviu isso, ele soltou uma bomba que virou o jogo contra os magistrados. O apóstolo protestou, dizendo: “Eles nos açoitaram em público sem julgamento, embora sejamos cidadãos romanos, e nos jogaram na prisão. E agora nos mandam embora secretamente? Por certo que não!

Ao contrário, que venham eles mesmos e nos escoltem para fora” Atos 16:37

Os magistrados cometeram um erro grosseiro ao supor que Paulo e Silas não eram cidadãos romanos simplesmente por serem judeus. Açoitar e prender cidadãos romanos sem submetê-los a um julgamento justo era, por si só, um crime. Na pressa de aplacar os ânimos dos senhores da escrava e da turba, os magistrados infringiram a lei. Paulo agora os responsabilizava por seu grave erro. A razão por que esperou até esse momento para informá-los de que ele e Silas eram cidadãos romanos é intrigante. Provavelmente foi porque estava disposto a sofrer por Cristo. Desde sua conversão, na estrada de Damasco, Paulo sabia que seu chamado para pregar o evangelho envolveria sofrimento (Atos 9:16). De fato, em sua carta à igreja de Filipos, Paulo declara: “Meu objetivo é conhecer Cristo e o poder de sua ressurreição e participar em seus sofrimentos, tornando-me como Ele em sua morte”. Filipenses 3:10. A disposição de sofrer como testemunha do Evangelho de Jesus foi, em parte, o que tornou seu ministério tão poderoso e eficaz.

Se Paulo se dispôs a ser açoitado e preso, nada dizendo sobre sua cidadania romana aos magistrados, então por que ele a revelava nesse momento? A cidadania romana garantia certos direitos e privilégios que não eram concedidos à maioria das pessoas no império. Certamente Paulo conhecia seus direitos. Ele havia sido julgado e punido em público como um criminoso, embora fosse totalmente inocente de qualquer delito. Assim, a reputação pública de Paulo e de Silas havia sido manchada e distorcida, lançando sobre eles um espectro de culpa, vergonha e desconfiança. Se Paulo e Silas fossem considerados criminosos ou encrenqueiros pela opinião pública, então o caráter de todos os crentes filipenses também corria perigo. A própria reputação da mensagem do Evangelho estava em jogo, por isso Paulo quis se certificar de que ele e Silas fossem plena e publicamente inocentados de todas as acusações.

Quando os magistrados souberam que Paulo e Silas eram cidadãos romanos, o estômago deles revirou de medo enquanto lutavam para controlar os danos. Eles eram responsáveis perante Roma e não podiam se arriscar a que Paulo levasse o caso até seus superiores. Então, apressaram-se a ir até a casa do carcereiro, praticamente tropeçando nos próprios pés, para pedir desculpas, na esperança de apaziguar Paulo e Silas (Atos 19:39). A exibição pública desses magistrados da cidade, agora se desculpando e cheios de deferências, escoltando Paulo e Silas para fora da casa do carcereiro, transmitiu a mensagem aos filipenses de que eles haviam tratado os dois homens injustamente. Vergonha e embaraço estavam estampados no rosto deles, e eles pediram a Paulo que, por favor, deixasse Filipos. Estavam ansiosos para fazer que o problema desaparecesse. Antes de partir, Paulo e Silas voltaram à casa de Lídia para, uma vez mais, encorajar os crentes ali reunidos Atos 16:40.

 

Paulo, Silas e Timóteo viajaram para oeste, pela Via Egnácia, até a cidade de Tessalônica (atualmente com o nome de Salônica), na Grécia, deixando Lucas para trás, em Filipos. A viagem de Filipos a Tessalônica era de quase 160km e provavelmente durou três a cinco dias completos. A rota os levou pelas cidades de Anfípolis e Apolônia, onde teriam pernoitado uma noite em cada uma delas. Anfípolis ficava a pouco mais de 48km de Filipos; Apolônia, a 42Km de Anfípolis; e Tessalônica, a cerca de 43Km de Apolônia.

Paulo visitava especificamente à cidade de Tessalônica como o local seguinte para evangelização. Atos 17:1. Ela era uma importante cidade portuária localizada na Via Egnácia, na ponta do Golfo Termaico. Foi fundada em 297aC. por Cassandro, um dos generais de Alexandre, o Grande, que deu à cidade o nome da esposa, Tessalônica, que era também meia-irmã de Alexandre. Como cidade livre, era um próspero centro comercial e capital da província romana da Macedônia. Tessalônica tinha um significado estratégico para Paulo e Silas, porque, como capital da província com um robusto comércio, sua população havia aumentado de 45 mil para 200 mil habitantes. Paulo pretendia concentrar seu ministério em cidades maiores e de maior expressão.

Os gregos compunham a maioria da população da cidade, embora ela fosse um centro urbano com uma composição étnica diversificada, que incluía trácios, macedônios, romanos e judeus. O próprio fato de Lucas mencionar uma sinagoga judaica indica que havia um número maior de judeus em Tessalônica do que em Filipos (Atos 17:1). É possível que alguns dos judeus e tementes a Deus de Filipos tivessem contatos pessoais na sinagoga de Tessalônica e tenham sugerido a Paulo que os procurasse. É possível também que Lídia tivesse contatos comerciais por meio da guilda dos artesãos de Tessalônica que trabalhavam com o tingimento em púrpura. Quaisquer que fossem as razões que motivaram Paulo a escolher Tessalônica, ele foi muito objetivo em seu itinerário.

Não está claro quanto tempo exatamente Paulo passou em Tessalônica. Lucas registra que ele esteve na sinagoga por três semanas, mas provavelmente, depois disso, manteve seu trabalho lá durante várias semanas (Atos 17:2). A primeira coisa que Paulo teria feito seria montar sua loja de tendas no mercado, ou perto dele, para seu sustento, algo a que ele, mais tarde, aludiu ao escrever para a igreja de Tessalônica: “Pois vocês se lembram de nosso trabalho e de nossas dificuldades, irmãos. Trabalhando noite e dia para não sobrecarregar ninguém, pregamos o evangelho de Deus a vocês”. 1 Tessalonicenses 2:9. A venda de tendas não somente garantia renda a Paulo, mas também lhe possibilitava o contato com muitos gentios da cidade. Apesar de haver persuadido diversos judeus a crer em Jesus, a maioria dos crentes de Tessalônica era composta de gentios (1 Tessalonicenses 1:9; 4:3-7). O apóstolo continuou a evangelizar entre os gentios e a lhes ensinar o suficiente para estabelecer a igreja (1 Tessalonicenses 4:1; 5:12; 2 Tessalonicenses 2:2). Provavelmente ele passou um mês ou mais em Tessalônica, evangelizando entre os gentios e discipulando os novos crentes.

Desde seu primeiro sábado na cidade, Paulo e os companheiros foram à sinagoga para discutir as Escrituras e mostrar aos judeus que Jesus é o Messias. Ele argumentou, com base nas Escrituras judaicas, que era necessário que Jesus morresse e ressuscitasse para provar que Ele é o Messias. Por três semanas seguidas, Paulo mostrou com habilidade sua destreza como teólogo, intérprete e orador persuasivo, e Silas estava igualmente envolvido nas discussões.

Alguns dos judeus foram convencidos pelos ensinamentos de Paulo e Silas e creram em Jesus. Além disso, um grande número de gregos tementes a Deus e mulheres de destaque, líderes da cidade, também creram. No final dessas três semanas, havia nascido a igreja de Tessalônica. O que começou como um pequeno grupo continuou a crescer e a se expandir, à medida que outros na cidade se tornavam crentes, durante o ministério em andamento. Mais tarde, Paulo se lembraria de seu tempo com a igreja de Tessalônica, ao escrever: “Pois sabemos, irmãos e irmãs, amados de Deus, que ele os escolheu, visto que o nosso evangelho não lhes chegou apenas em palavras, mas também em poder, no Espírito Santo, e com plena certeza”. 1 Tessalonicenses 1:4-5.

 

Por mais bem-sucedido que tenha sido seu ministério em Tessalônica, Paulo, Silas e Timóteo logo enfrentaram uma reação significativa dos judeus incrédulos, que incitaram uma turba a se revoltar contra Paulo (Atos 17:5). Embora ele fosse judeu e priorizasse a pregação do Evangelho aos judeus (Atos 13:14; Atos 17:2,10; Atos 18:4, 19; Atos 19:8; Romanos 1:16), a maioria da oposição ao seu ministério era dos que, na sinagoga, rejeitavam sua mensagem e se ressentiam de sua popularidade (Atos 13:45; Atos 13:2; Atos 17:13; 1 Tessalonicenses 2:14-15). Eles invejavam o número de seguidores que Paulo conquistara em tão pouco tempo. Acredita-se que até Aristarco e Segundo – naturais de Tessalônica e companheiros do apóstolo em muitas outras viagens realizadas – tenham se convertido nessa primeira visita (Atos 20:4; Romanos 16:21). Então, recorreram a táticas de turba aliciando alguns desordeiros para criar um alvoroço público no mercado. O termo grego que Lucas usa para esses indesejáveis significa “sujeitos do mercado” (outras palavras usadas para traduzir esse mesmo termo são “ralé” e “desocupados”), que geralmente se referia a trabalhadores contratados por dia ou a pessoas desempregadas, de baixa condição social, que permaneciam nas áreas de mercado.

A multidão criou um espetáculo e tanto enquanto corria pelas ruas gritando seu descontentamento diante da ameaça que esses cristãos representavam para o estilo de vida romano. Ela convergiu para a casa de um homem chamado Jasom, a fim de encontrar Paulo e os companheiros pois era onde estavam alojados, e chegando lá, não encontrando Paulo, arrastaram Jasom até o fórum da cidade, o colocando diante de uma assembleia púbica (Atos 17:5). É provável que Jasom fosse um judeu que se tornou crente durante o período em que Paulo e Silas estiveram na sinagoga.

Em lugar de Paulo e Silas, a turba levou Jasom e alguns outros perante os magistrados da cidade e levantou acusações contra eles. Fizeram três acusações contra os cristãos: (1) eles causaram problemas no mundo todo; (2) Jasom os acolheu; (3) estão agindo contra os decretos de César ao declarar que o rei era Jesus, não o imperador. A primeira e a terceira acusações eram dirigidas principalmente a Paulo e Silas, mas a segunda tinha como alvo Jasom, pois era uma forma de justificar o fato de o levarem a julgamento.

A multidão caracterizava os cristãos como encrenqueiros que representavam uma ameaça à paz das cidades e, ainda, como rebeldes perigosos que fomentavam a traição contra o imperador romano. Dizer “Jesus é Senhor” era visto como uma alegação política que exigia lealdade e obediência a outro rei que não César. Jesus foi acusado e executado por traição como “rei dos judeus”. (Lucas 23:3, 38; João 18:33-39; 19:19). Esses cristãos não apenas adoravam a Jesus como rei, mas também faziam com outros deixassem de adorar quaisquer outros deuses, o que abrangia a adoração ao imperador (1 Tessalonicenses 1:9). Ao ouvir isso, os oficiais da cidade ficaram preocupados com a gravidade das acusações. Curiosamente, em vez de proferirem um veredito, eles somente obrigaram Jasom a pagar uma fiança e depois o libertaram. É bem possível que esses oficiais não acreditassem totalmente nas acusações, mas, como elas eram feitas contra Paulo e Silas, o mais provável é que o julgamento deveria aguardar até que os acusados estivessem realmente presentes.

Apesar do alvoroço da multidão naquele dia, curiosamente Paulo e Silas não foram encontrados em lugar nenhum. Onde quer que estivessem, evitaram se envolver em outro resultado desastroso como o de Filipos. Paulo muito se afligia ao saber que esses novos crentes estavam sendo alvo e perseguidos tão injustamente. Entretanto, era abençoado ao ver como eles suportavam bem tudo isso (1 Tessalonicenses 2:14; 2 Tessalonicenses 1:4). A situação em Tessalônica agora estava muito tensa e perigosa para Paulo e os companheiros, de modo que, naquela noite, sob o disfarce da escuridão, os irmãos e irmãs enviaram Paulo, Silas e Timóteo a caminho da pequena e remota cidade de Bereia. Atos 17:10.

 

A decisão de Paulo de ir para Bereia (atual Véria, na Grécia) foi interessante, pois ele precisou sair intencionalmente de seu caminho para chegar lá. De Tessalônica, Paulo teria viajado na Via Egnácia rumo ao oeste por um bom trecho, ignorando a estrada costeira (caminho que seria preferível) até chegar à pequena estrada para Bereia, que ficava 40km além da estrada principal, no sopé do monte Bermion. Na verdade, os crentes tessalonicenses provavelmente sugeriram Bereia como um lugar em que Paulo e os amigos passariam despercebidos até que diminuíssem as hostilidades em Tessalônica. É possível que Jasom ou outros crentes tivessem parentes ou amigos na sinagoga de Bereia, o que forneceria a Paulo alguns contatos por lá.

Chegando à cidade, Paulo foi imediatamente para a sinagoga. A recepção dos bereanos a Paulo e a sua mensagem foi muito melhor do que Tessalônica. Lucas afirma que “as pessoas ali eram de caráter mais nobre do que as de Tessalônica, pois receberam a palavra com avidez e examinavam as Escrituras diariamente para ver se essas coisas eram de fato assim”. Atos 17:11. Enquanto Paulo argumentava com eles sobre Jesus, o Messias, com base nas Escrituras, eles dedicaram séria atenção aos textos por vários dias, a fim de confirmar ou rejeitar o que Paulo estava dizendo. O resultado foi que muitos judeus bereanos, bem como um bom número de mulheres e homens gregos proeminentes, tornaram-se crentes em Jesus. Ao menos um deles era um judeu que se chamava Sópatro, filho Pirro, que mais tarde acompanhou Paulo a Jerusalém, no final de sua terceira viagem missionária (Atos 20:4), e estava em Corinto, com Paulo, quando o apóstolo escreveu sua Carta aos Romanos (Romanos 16:21).

Não demorou muito, no entanto, para que os judeus de Tessalônica contrários a Paulo descobrissem onde ele estava. Os contatos entre as comunidades judaicas dessas duas cidades devem ter sido bastante estreitos, dada a rapidez com que as notícias do ministério de Paulo alcançaram Tessalônica. Logo chegou um grupo e começou a causar problemas, incitando as multidões. Os membros da comunidade cristã recém-formada em Bereia agiram rapidamente para tirar Paulo da cidade, antes que a situação piorasse. Eles o levaram para Pidna, o porto costeiro de Bereia, de onde vários deles navegaram com o apóstolo para Atenas, uma viagem que durou cerca de quatro dias de navegação para percorrer os 540km de distância. Enquanto isso, Silas e Timóteo permaneceram um pouco mais em Bereia e, mais tarde, encontraram-se com Paulo em Atenas (Atos 17:14-15; 18:5).

A ida para Atenas representa mais do que somente uma mudança de província, da Macedônia para a Acaia. Ela parece indicar que Paulo mudou o destino que tinha em mente, de Roma para Corinto. É bem possível que ele planejasse, a princípio, viajar pela Via Egnácia até a costa do Adriático, de onde poderia facilmente navegar para a Itália e, depois, seguir pela Via Ápia até Roma. Em sua carta à igreja em Roma, escrita por volta de 57 a 58dC., Paulo afirma que “muitas vezes planejara” visitá-los, mas foi impedido (Romanos 1:13). Sabemos que o que o impediu de ir a Roma, nessa época, foi a oposição a seu ministério, que começou em Tessalônica.

Deus estava guiando cada passo da missão de Paulo, tanto por meio de relacionamentos pessoais e sonhos quanto por obstáculos ou perseguição. Em tudo isso, ele não se sentia desencorajado nem derrotado. Ao contrário, passava praticamente sem grandes percalços de um local de ministério para outro. Para ele, cada novo local era simplesmente outra oportunidade para pregar Cristo e plantar novas igrejas.

 

Atenas foi um desvio na missão de Paulo. A oposição em Tessalônica o obrigou a partir mais cedo, e seus oponentes o seguiram até Bereia. Em ambas as cidades, os novos crentes o encorajaram a fugir por motivo de segurança. Eles queriam protegê-lo para que pudesse continuar compartilhando o Evangelho em outras cidades. Como ficou evidente no período que passou em Filipos, Paulo não era de fugir de dificuldades, açoites ou prisão. Mesmo assim, nas duas situações ele concordou em partir porque sentiu que o Senhor o guiava.

Paulo então partiu, deixando Silas e Timóteo para trás a fim de darem continuidade ao ministério, enquanto ele e um pequeno grupo de crentes de Bereia viajaram para a costa e embarcaram em um navio para Atenas (Atos 17:14). Atenas estava localizada na extremidade sudoeste da planície Ática e abrangia uma área de cerca de 2.590km quadrados. A cidade era cercada por defesas naturais, com montanhas ao norte, noroeste e nordeste, e o mar ao sul. Os três portos construídos no Pireu catapultaram a antiga Atenas à posição de império marítimo, o que fazia do local um porto bastante movimentado quando Paulo o visitou. Ao desembarcar ali, ele teria visto as impressionantes muralhas do Pireu e caminhado por seus cinco átrios com colunatas, repletos de mercadores expondo as mercadorias à venda. Ao seguir para a cidade, no caminho veria uma porção de templos dedicados a diversos deuses e deusas gregos.

 

Embora Atenas não estivesse no itinerário original de Paulo, ainda assim ele aproveitou a oportunidade para visitar essa prestigiosa cidade, berço da Academia e conhecida por sua rica história e herança cultural. Quando o apóstolo a visitou, por volta do verão de 50dC, já haviam passado cerca de 500 anos da era de ouro da cidade. Seu nome é derivado de Atena, a deusa grega da sabedoria. Fiel ao nome, Atenas foi o epicentro da cultura grega, que imprimiu uma influência duradoura na política e na cultura ocidental por meio da democracia, da filosofia e da educação (foi ali que Platão fundou a Academia, por volta de 387aC.), bem como fez contribuições significativas para a arte e a religião.

Conquanto Atenas tivesse sido, um dia, uma metrópole em ranca expansão, derrotas significativas em várias guerras – primeiro, para Filipe II da Macedônia e, depois, para os romanos – reduziram sua importância e deixaram apenas uma sombra da antiga glória. No período romano, Corinto e Éfeso superaram Atenas como centros políticos com grandes populações. A população de Atenas havia encolhido para algo entre 20 a 25 mil habitantes. A cidade ficava na província senatorial romana da Acaia, governada por um procônsul sediado em Corinto. Sendo Atenas um modelo da cultura grega e centro primordial do pensamento filosófico, não é de surpreender que Paulo viesse a demonstrar ali todo o arsenal de sua maestria intelectual.

Enquanto esperava que Silas e Timóteo se juntassem a ele, Paulo aproveitou a oportunidade para explorar a cidade, e o grande número de ídolos que viu por lá o perturbou profundamente. Por todo o mercado, ele passou por um grande número de hermas, pilares de mármore com a cabeça do deus Hermes esculpida no topo. Quando olhou para Atenas do alto da majestosa Acrópole, situada no centro da cidade, havia tantos templos e estátuas que parecia uma densa floresta de ídolos. A devoção dos atenienses a seus vários deuses e deusas foi notada até mesmo por Pausânias, geógrafo da antiguidade que disse, certa vez, que “os atenienses são bem mais devotados à religião do que os outros homens”.

Embora também houvesse estátuas nas outras cidades que Paulo visitara, bem como templos em que as pessoas adoravam muitas dessas mesmas divindades, o que ele viu em Atenas superava tudo, a ponto de enfurecê-lo. Em Atos 17:16, a expressão grega traduzida por “ficou profundamente incomodado” significa “foi provocado a se irar” ou “ficou irado”, e é a mesma palavra usada na Septuaginta para se referir à ira extrema de Deus diante da idolatria (Deuteronômio 9:19; Salmos 106:29; Isaías 65:3; Oséias 8:5).

No sábado, Paulo foi à sinagoga e discutiu com os judeus e gentios tementes a Deus. Apesar de não haver chegado até nós o conteúdo da discussão do apóstolo na sinagoga, com base no contexto de Atos 17 é provável que ele tenha expressado sua preocupação com essa idolatria desenfreada e os tenha chamado a adorar exclusivamente a Deus, mediante a fé em Jesus. Não há indicação de como sua mensagem foi recebida na sinagoga de Atenas, pois o foco principal de seu ministério estava na praça do mercado em vez da sinagoga.

A Ágora ateniense era mais do que um mercado típico; ela era o coração cívico, econômico, cultural e intelectual da cidade. Existia desde os primeiros dias de Atenas e foi onde se estabeleceu o centro do governo que deu origem ao sistema político democrático. Era também um mercado de ideias, no qual nomes como Sócrates, Platão, Aristóteles e uma infinidade de outros filósofos contribuíram para gerações de pensadores.

O mercado era um centro de adoração, bem como um local de debates. Paulo ia lá diariamente para transmitir aos atenienses a mensagem de Jesus e de sua ressurreição, mensagem essa que confundiu a mente politeísta dos gregos (Atos 17:17). Localizada perto da Acrópole da colina de Ares (colina de Marte), a Ágora era uma grande praça aberta, ladeada por edifícios governamentais, templos e longas colunatas ou pórticos, conhecidos como estoas. Uma das mais significativas delas era a Stoa Poikile (“Estoa Pintada”), assim chamada por causa de suas pinturas decorativas. Era o ponto de encontro mais popular da Ágora para discussões e atividades culturais e atraía um grupo de diversificado de malabaristas, engolidores de espadas, mendigos, peixeiros e filósofos. O filósofo mais notável foi Zenão, que ministrou aulas ali por volta de 300aC.. Seus seguidores ficaram conhecidos como estoicos por se reunirem na estoa. Debatendo diariamente no mercado, Paulo conquistou a audiência tanto de epicureus quanto de estoicos. As sessões diárias de ensinamento ali ministradas por Paulo não pareciam estranhas, pois a Ágora era um espaço habitual para a troca de ideias e Paulo era um profundo conhecedor tanto da mitologia como da cultura grega, não se surpreendeu em nada ao encontrar dois grupos com ideais distintos: os epicureus e os estoicos.

Os epicureus, discípulos de Epícuro, afirmavam que a morte acaba com o homem e a alma. A busca pelo prazer devia ser o alvo do ser humano, mas não o prazer hedonista, e sim a paz interior, contentando-se com as coisas simples e alegrando-se pelo simples fato de existir. Nesse sentido, o prazer em uma boa conversa filosófica era o que devia ser buscado, em detrimento de prazeres carnais, tais como a comida, a bebida e o sexo.

Já os estóicos, seguidores do filósofo Zenão de Cítio, costumavam reunir-se ao norte da Ágora de Atenas, na Stoa pintado – daí o nome escola estoica. De acordo com os adeptos dessa filosofia, há uma lei universal, à qual o ser humano deve ajustar-se, buscando uma harmonia entre o homem e a divindade. Era preciso abster-se dos prazeres mundanos, a fim de alcançar o domínio próprio e a libertação dos sofrimentos.

Fatalistas, eles aceitavam os acontecimentos quaisquer que fossem, seja a sorte, o azar, a dor ou a doença. Para eles, o homem deveria contentar-se com o que lhe sucedesse. Além disso, acreditavam em um deus criador, mas diferente do Criador, do Verbo que Se fez Carne, pregado por Paulo.

Atenas era uma cidade universitária. Portanto, era comum ver mestres apresentando suas ideias para quem as quisesse ouvir. O que tornava o ensino de Paulo tão estranho para epicureus e estoicos era a mensagem de Jesus e sua ressurreição, especialmente porque a ressurreição dos mortos era um conceito ausente no contexto greco-romano. Eles provavelmente confundiram a mensagem de Paulo entendendo-a como uma mensagem que falava sobre dois deuses: o deus Jesus e a deusa Anastasis (o termo grego para “ressurreição”). E começaram a debater com Paulo apenas para descobrir que ele era um pensador formidável e muito hábil.

Em vez de contradizerem o apóstolo, epicureus e estoicos zombavam dele como um “exibicionista ignorante” e um “pregador de deuses estranhos” (Atos 17:18). Os termos gregos traduzidos por “exibicionista ignorante” (ou “tagarela”, em algumas versões em português) significam literalmente “apanhador de sementes”, expressão que era usada como um insulto e que descreve alguém que sonda várias ideias filosóficas e religiosas, sem entendê-las plenamente, e depois as funde em um sistema estranho e híbrido de crenças. A acusação de que Paulo anunciava deuses estranhos é interessante porque foi com base em uma acusação semelhante que Sócrates foi condenado à morte. Ele foi acusado de propagar divindades estranhas ou estrangeiras. Os opositores de Paulo procuravam minar sua credibilidade e fazer que seus ensinamentos fossem oficialmente examinados pelo Areópago, a fim de determinar se ele poderia continuar pregando em Atenas de forma legítima.

 

Os epicureus e os estoicos que se opunham a Paulo levaram-no diante do Areópago, termo que remete tanto a um lugar quanto a um conselho. Como lugar, refere-se a uma elevação denominada colina de Ares (Areo = Ares; pagus = colina). Ares era o deus grego da guerra, chamado de Marte pelos romanos. Por isso, esse lugar também é conhecido como colina de Marte. Historicamente, era onde se reunia o conselho de governo, composto por seiscentos homens. Esse conselho também era chamado de Areópago em razão, justamente, do local em que suas reuniões ocorriam.

No século 1, no entanto, a função legal e o número de membros do conselho haviam diminuído bastante. Evidências mostram que eles não mais se reuniam no topo da colina, mas sim no Pórtico Real (Stoa Basileios), que ficava no canto noroeste do mercado, perto da Estoa Pintada. Embora a autoridade do Areópago não fosse mais a mesma de seu passado glorioso, o conselho ainda era responsável por manter a ordem cívica, resolver questões legais, garantir o devido respeito aos costumes religiosos e aprovar o conteúdo da educação filosófica e moral. Em especial, eram seus membros que deveriam examinar e aprovar a apresentação de quaisquer deuses estrangeiros.

Os atenienses tinham uma rica história de introdução de novos deuses em toda a Macedônia e Acaia e gostavam muito de “contar ou ouvir novidades”. Atos 17:21. Assim, nesse episódio, Paulo não estava enfrentando um julgamento legal como o que enfrentou em Filipos. Ele estava simplesmente expondo seu ensinamento perante o conselho oficial, que, então, tinha autoridade para sancionar sua mensagem como uma religião legítima e viável ou para condená-la. De qualquer forma, sem dúvida o sermão mais importante registrado no livro de Atos é o de Paulo diante do Areópago.

O que torna esse sermão tão único e importante é que, diferentemente da maneira em que Paulo costumava compartilhar a mensagem do Evangelho – usando as Escrituras judaicas e a história de Israel, ele agora apresentava o Evangelho de uma maneira perfeitamente adaptada a um público greco-romano filosófico. Devemos ter em mente que ele era acusado de ser um “apanhador” de ideias e de introduzir “deuses estranhos”, e seu sermão visava refutar ambas as acusações. Ele refuta a acusação de ser um apanhador de ideias (ou tagarela) apresentando uma teologia logicamente coesa e consistente. E contesta a segunda acusação argumentando que seu Deus é o Único Criador universal, que fez todas as coisas e todas as pessoas. Portanto, não é um novo deus – ele é simplesmente um Deus desconhecido para eles.

Paulo começa seu discurso comentando que viu um altar intitulado “A um Deus desconhecido” e que está somente proclamando quem é esse deus (Atos 17:23). Essa jogada brilhante deixa claro que ele não está introduzindo uma divindade totalmente nova em Atenas. Ele embasa seu argumento em Deus como o Criador autossuficiente que fez o Universo e governa todo o céu e toda a terra como Senhor. Curiosamente, ao enfatizar que esse Deus “não mora em santuários feitos por mãos humanas” nem precisa de nada (Atos 17:24-25), o apóstolo refuta tacitamente a necessidade da aprovação do Areópago para iniciar uma nova religião, pois em geral isso envolveria a compra de terras para construir um altar e um templo. Embora esse Deus possa ser o Deus dos judeus, Ele é o Criador de todas as pessoas e determinou onde elas viveriam (Atos 17:26). Portanto, é o Deus de todas as pessoas, e todas são igualmente criadas para conhecê-lO e adorá-lO com exclusividade. Esse Deus desconhecido quer que todas as pessoas o conheçam e colocou dentro delas o desejo de buscá-lO e de encontrá-lO. Atos 17:27. Paulo pretendia, possivelmente, insinuar que toda a filosofia e todos os ídolos deles eram uma evidência de que buscavam conhecer Deus.

Para que entendessem com clareza seu argumento sobre Deus ser o Criador do Universo, ele não cita as Escrituras, mas sim filósofos gregos. O apóstolo argumenta que Deus está perto deles e os fez buscá-lO. E afirma: “Pois nele vivemos, nos movemos e existimos, como alguns de seus poetas disseram: “Pois também somos sua descendência”. Atos 17:28. Mais uma vez, Paulo demonstra sua brilhante adaptabilidade ao redirecionar o que os pagãos disseram de Zeus em favor do único e verdadeiro Deus Criador que ele está proclamando. A frase “nele vivemos, nos movemos e existimos” é geralmente atribuída a um poeta cretense chamado Epimênides (cerca de 315-240aC.), um filósofo estoico da Cilícia, que afirmou: “pois também somos sua descendência”. Ambas as declarações certamente reverberaram entre os estoicos, que eram panteístas e acreditavam que todas as coisas existiam no divino.

Contudo, o apóstolo redefine essa noção traçando uma distinção entre criação e Criador. Eles são feitos à imagem do Criador, e este está perto deles, mas precisam buscá-lO. Eles adoraram a criação moldando ídolos e inventando deuses imaginários, esculpidos na forma humana (Atos 17:29). Tendo estabelecido Deus como o Único Criador, e que este os criou para um propósito, Paulo passa a defender que, por isso, eles respondem perante esse Deus. O apóstolo fecha o cerco de forma apoteótica quando os chama a deixarem seus ídolos pela fé em Jesus, que ressuscitou dos mortos (Atos 17:30). Embora, em sua ignorância, eles adorassem ídolos, agora que Deus se dera a conhecer, Ele os responsabilizará. Certamente os julgará por meio do homem que designou como juiz, ressuscitando-O dentre os mortos.

À menção da ressurreição, os atentos ouvintes interromperam a mensagem de Paulo com respostas mistas. Alguns acharam absurda a afirmação de um homem ressuscitado. Outros ficaram curiosos para ouvir mais. Uns poucos creram em Jesus. Um dos que creram na mensagem paulina naquele dia foi Dionísio, que era membro do Areópago. Outra pessoa foi uma mulher chamada Dâmaris (Atos 17:34). Outras pessoas se tornaram crentes naquele dia, mas a referência a Dionísio e Dâmaris é significativa, pois eles eram líderes respeitados da sociedade ateniense.

Apesar de todas as coisas significativas que ocorreram em Atenas, a cidade era ainda uma espécie de escala até que Silas e Timóteo se reunissem a ele. Ambos haviam permanecido em Bereia, mas, quando Paulo chegou a Atenas, enviou-lhes uma mensagem para que se juntassem a ele. O apóstolo estava atuando sozinho em Atenas, e, em algum momento, Timóteo e Silas chegaram. Entretanto, o reencontro com os cooperadores na obra foi breve, pois as preocupações urgentes deles com os novos crentes da Macedônia obrigaram-no a continuar sozinho um pouco mais. Em sua Primeira Carta aos Tessalonicenses, ele explica que “quando já não suportávamos mais, pensamos ser melhor ficar sozinhos em Atenas. E enviamos Timóteo” (1 Tessalonicenses 3:1). Com base nisso, parece claro que, de Atenas, Paulo enviou Timóteo de volta a Tessalônica. O “nós” sugere que Silas estava lá também. Entretanto, ao que tudo indica Paulo enviou Silas de volta a Filipos enquanto Timóteo foi para Tessalônica. Sabemos que os crentes filipenses enviaram mais ajuda financeira a Paulo quando este esteve em Corinto, e que foi Silas quem a entregou. (2 Coríntios 11:9; Filipenses 4:14).

Com o retorno de Timóteo e Silas a Tessalônica e Filipos, respectivamente, Paulo decidiu deixar Atenas também. Ele voltou seus olhos para a cidade de Corinto, que ficava a apenas 85km a oeste de Atenas, aproximadamente.

 

Paulo escolheu Corinto por motivos pessoais e estratégicos: ele precisava de uma base de operações de onde pudesse manter a comunicação com os crentes da Macedônia. Mais uma vez Paulo pega o navio e navega em torno de 100km até chegar em Corinto. Corinto foi a primeira cidade em que ele residiu por algum tempo (dezoito meses) desde sua partida de Antioquia. Quando chegou a Corinto, talvez tenha se sentido um pouco aflito e abalado, como veio a lembrar aos coríntios, mais tarde, comentando que viera lhes pregar o Evangelho “em fraqueza, em temor e em grande tremor” (1 Coríntios 2:3). O tempo de Paulo em Corinto foi um dos mais frutíferos em seu ministério, pois lá não enfrentou forte oposição nem foi obrigado a antecipar sua partida.

Corinto era a capital da província da Acáia. Abrangia uma área de cerca de duas vezes o tamanho de Atenas, e sua crescente população estava entre 100 e 300 mil habitantes. A sua história é longa e lendária. A Corinto antiga fora completamente destruída por Roma em 146aC., e sua população, vendida como escrava, por um general romano chamado Lucius Mummius. A cidade permaneceu desabitada por aproximadamente 100 anos até ser novamente fundada por Júlio César, em 44aC.,  como colônia romana, sob o nome de Laus Iulia Corinthiensis. A partir de 27aC., desempenhou o papel de capital da Acaia. Uma vez estabelecida, a colônia atraiu empreendedores de lugares como Grécia, Itália, Ásia e Oriente Médio, tornando-se um grande centro comercial que proporcionou muita riqueza a seus cidadãos, um dos maiores centros urbanos do Império. Corinto foi reocupada tão rapidamente que, na época em que Paulo a visitou, em 50dC., era a cidade mais próspera e bonita, moderna e empreendedora da Grécia, chegando a 700 mil pessoas, sendo destas, 500 mil, escravos; tendo um teatro que comportava 14 mil expectadores; e o Fórum, uma praça no centro da cidade onde eram decididas questões legais e administrativas, era maior do que o de Roma.

Corinto atraía Paulo também pelo fato de sua localização sem igual torná-la uma das grandes encruzilhadas do mundo antigo, o que propiciava uma excelente comunicação com todos os pontos cardeais. A cidade fica no istmo que liga o continente grego à península do Peloponeso. O istmo é uma estreita faixa de terra (com somente 6km de largura aproximadamente) entre o golfo Sarônico e o mar Egeu, a leste, e o golfo de Corinto e o mar Adriático, a oeste. Havia dois portos a apenas alguns quilômetros de Corinto: Cencreia, o porto oriental (a 10km de distância), e Laqueum (ou Lequeu), o porto ocidental (a 3km). De Corinto, era possível navegar para Roma em cerca de 5 dias, e levaria de 2 a 3 dias para navegar até Éfeso. Portanto, era uma importante cidade portuária, com tráfego marítimo contínuo, e um centro comercial do mundo mediterrâneo. Mais ainda, por ser um lugar tão cosmopolita, com pessoas de todo o Império Romano indo e vindo, Corinto possibilitou que a mensagem de Paulo se espalhasse com maior facilidade.

Uma última razão pela qual Paulo pode ter sido atraído à cidade era sua reputação de grande metrópole comercial. Conquanto muitos de seus produtos de exportação fossem valiosos, o bronze coríntio era de longe uma das mercadorias mais caras e procuradas do mundo antigo. Corinto atraía comerciantes de todo o Império Romano, o que fazia dela uma cidade verdadeiramente cosmopolita.

Além do fluxo constante de negociantes, a cada dois anos a população de Corinto aumentava com a presença de milhares de turistas, na época em que a cidade sediava os Jogos Ístmicos. Os Jogos Ístmicos eram uma série de competições atléticas e musicais dedicadas ao deus Poseidon, e eram o segundo evento mais popular depois das Olimpíadas celebrados em Olímpia. O turismo contribuía para a economia de Corinto de uma forma que teria beneficiado Paulo. A maioria dos visitantes da cidade, incluindo os marinheiros que regularmente passavam por ela, preferiam se hospedar em tendas em vez de alugar um quarto em uma de suas duvidosas hospedarias. Paulo trabalhou como fabricante de tendas enquanto morou em Corinto, o que deve ter sido lucrativo caso isso tenha ocorrido durante os jogos. (Atos 18:3). Curiosamente, a primeira vez que emprega imagens esportivas é em sua Primeira Carta aos Coríntios (1 Coríntios 9:24-27). Corinto proporcionou a Paulo um local ideal para trabalhar, viver e se engajar no ministério de uma maneira que poucas cidades o haviam proporcionado até aquele ponto de sua missão.

Apesar de todas essas características vantajosas, Corinto também era famosa pelo excesso de imoralidade, prostituição e vícios. Seus habitantes eram devotos de “muitos deuses e muitos senhores”. 1 Coríntios 8:5, mas, principalmente, eram adoradores fervorosos de Poseidon e de Afrodite, as divindades padroeiras da cidade.

Poseidon era o deus do mar, e os habitantes de Corinto, que eram navegadores, procuravam sempre obter seu favor. Afrodite era a deusa do amor, da beleza e do sexo, bem como a deusa padroeira dos marinheiros. Havia na cidade vários templos dedicados a Afrodite; o mais famoso entre eles localizava-se no topo de Acrocorinto, uma pequena montanha que se eleva a cerca de 580 metros acima da planície em que a cidade foi construída. Do templo de Afrodite descortinava-se uma vista imponente da cidade. No entanto, ele era relativamente pequeno, não media mais do que 10 metros por 15 metros. É celebre a observação de Estrabão de que “o templo de Afrodite era tão rico que possuía mais de 1000 escravos e cortesãs, os quais tanto homens quanto mulheres haviam dedicado à deusa”. O templo era dono desses escravos e dessas cortesãs, as quais atuavam como prostitutas sagradas espalhadas por toda a cidade, de modo que os crentes coríntios viviam cercados por uma cultura saturada de sexo e imoralidade sexual. Portanto, não é surpreendente o fato de que Paulo precisou abordar questões de imoralidade sexual e prostituição, além de fornecer orientações sobre casamento para os crentes em Corinto (1 Coríntios 5:1-13; 6:13-20; 7:1-6).

 

Paulo chegou sozinho a Corinto, mas logo se tornou amigo de um casal de crentes chamados Áquila e Priscila. Áquila, nome latino que significa “águia”, era um judeu originário da província romana do Ponto, ao longo da costa do mar Negro, na porção norte da Ásia Menor. Sua esposa, Priscila, também era judia e pode ter sido escrava liberta de uma famosa matrona romana de mesmo nome. Eles moravam em Roma, onde provavelmente se converteram a Jesus, mas se mudaram para Corinto porque Cláudio, o imperador romano, emitiu um edito expulsando todos os judeus da cidade de Roma (Atos 18:2). O edito de Cláudio é mencionado pelo historiador romano Suetônio, que afirma: “Ele baniu de Roma todos os judeus, que continuamente faziam distúrbios por instigação de certo Cresto”. Comumente considera-se que “Cresto” era uma forma latinizada do nome “Cristo”, o que sugere que Suetônio o confundiu com o nome de um líder que causava agitação entre os judeus em Roma.

O edito de Cláudio, quaisquer que sejam os detalhes exatos a seu respeito, também nos fornece algumas informações sobre quando Paulo esteve em Corinto. Com base na leitura de Josefo, um antigo historiador da igreja chamado Orósio (século V) datou esse edito do nono ano do reinado de Cláudio, no outono ou inverno do ano 49dC.. Isso significa que Áquila e Priscila teriam se mudado para Corinto em algum momento entre a metade do ano 49 e o início do ano 50dC., chegando antes de Paulo a Corinto por apenas alguns meses.

Como fabricantes de tendas, profissionais que, de forma mais ampla, podem ser definidos como artesões em couro, Áquila e Priscila partilhavam da mesma atividade comercial de Paulo (Atos 18:3; 1 Coríntios 4:12). A fé e a vocação comuns os uniram como amigos, colegas de trabalho e cooperadores no ministério do Evangelho. Paulo se referia a esse casal como seus estimados e valiosos colaboradores em Corinto (Atos 18:2-3), Éfeso (Atos 18:18-26; 1 Coríntios 16:19) e Roma (Romanos 16:3; 2 Timóteo 4:19). Como eles viriam a hospedar a igreja em sua casa em Éfeso (1 Coríntios 16:9) e em Roma (Romanos 16:4-5), é provável que também tenham organizado uma reunião de alguns crentes em sua casa em Corinto, antes da chegada de Paulo.

Eles possuíam uma pequena oficina em Corinto e convidaram o apóstolo para viver e trabalhar com eles ali.

Áquila, Priscila e Paulo passavam os dias costurando e transformando couro resistente e durável em tendas espaçosas, que vendiam aos muitos marinheiros e turistas de Corinto. Exceto aos sábados, Paulo passava o dia inteiro, todos os dias, trabalhando como artesão no mercado.

No sábado, o apóstolo frequentava a sinagoga, onde argumentava com judeus e gregos tementes a Deus a fim de persuadi-los de que Jesus é o Messias (Atos 18:4). Havia em Corinto uma expressiva população de judeus da Diáspora, era uma cidade muito populosa, porém, repleta de imoralidade e paganismo. Havia diversos templos dedicados ao culto de deuses pagãos: Poseidon, Hermes, Afrodite e Apolo, o mais popular. Havia até um dedicado a “todos os deuses” (Panteão) e também um a Asclépio (ou Esculápio – o deus da cura), cujos resquícios arqueológicos foram encontrados e estão dispostos em um museu local. Os portos de Corinto encurtavam a viagem entre a Europa e a Ásia, fazendo da cidade um centro comercial que atraía marinheiros de todas as partes do mundo. A província não era apenas sinônimo de riqueza, mas também de bebedeira e devassidão. No antigo templo de Afrodite, localizado na Acrópole da cidade, havia mais de mil prostitutas sacerdotisas. Durante a noite, elas buscavam clientes nas ruas de Corinto.

É possível que a sinagoga frequentada por Paulo se localizasse perto de uma importante via da cidade, a estrada de Lequeu, próxima da entrada do mercado.

Em algum momento do verão de 50dC., Timóteo e Silas finalmente chegaram da Macedônia e novamente se juntaram a Paulo (Atos 18:5). Ao retornar, Timóteo atualizou o apóstolo sobre a situação em Tessalônica, o que o levou a escrever sua Primeira Carta aos Tessalonicenses (1 Tessalonicenses 3:1-2). Silas também lhe trouxe notícias da igreja em Filipos, além de uma oferta que os crentes haviam coletado para ele (2 Coríntios 11:9; Filipenses 4:15). Essa oferta permitiu que Paulo dedicasse todo o tempo, não apenas o sábado, a seu ministério entre os judeus em Corinto. Esse esforço concentrado somente intensificou a rejeição dos judeus à mensagem do evangelho que ele anunciava. Então, Paulo começou a voltar o foco de seu ministério mais especificamente para os gentios (Atos 18:6). Ele saiu da sinagoga e, literalmente, foi para a porta ao lado, à casa de um gentio temente a Deus chamado Tício Justo, onde continuou a pregar e a ensinar sobre Jesus.

Tício Justo abriu sua casa para Paulo porque havia se tornado crente durante o ministério paulino na sinagoga. O nome Tício Justo sugere que ele era um cidadão romano e rico. Como os cidadãos romanos tinham três nomes (praenomen, nomen e cognomen), é possível que ele fosse conhecido mais informalmente pelo nome Gaio. Sendo assim, talvez fosse o mesmo Gaio citado por Paulo como uma das poucas pessoas que ele pessoalmente batizou em Corinto (1 Coríntios 1:14) e que hospedou a igreja em sua casa, na qual o apóstolo ficou enquanto escrevia a Carta aos Romanos (Romanos 16:23).

Tício Justo não foi o único a se converter enquanto Paulo ministrava na sinagoga, pois Crispo, o líder da sinagoga, também creu no Senhor, junto com toda a sua casa (Atos 18:8). Crispo era um membro bastante respeitado e rico da comunidade judaica. Sua conversão à fé em Jesus não só teria sido um golpe significativo nos detratores de Paulo, como também teria influenciado muitos outros a aceitarem a mensagem dele. Junto com Gaio, o apóstolo batizou pessoalmente Crispo e outro homem, chamado Estéfanas, cujos membros da família foram os primeiros convertidos de Paulo na Acaia (1 Coríntios 1:14-16; 16:15). Com a conversão de Crispo, Lucas nos diz que “muitos dos coríntios, quando ouviram creram e foram batizados”. Atos 18:8

Durante esse tempo de abertura e receptividade ao Evangelho, que se constituiu no cerne da estada de Paulo em Corinto, Jesus o encorajou com uma promessa de proteção: “Não tenha medo, mas continue falando e não fique calado. Pois eu estou com você, e ninguém levantará a mão para lhe fazer mal, porque tenho muita gente nesta cidade”. Atos 18:9-10. Durante um ano e meio depois disso, Paulo continuou a pregar as boas-novas de Jesus e discipulou os crentes em Corinto que cresciam rapidamente em número. Embora a maior parte desse ministério se reduza a alguns versículos apenas em Atos, as cartas de Paulo nos fornecem um retrato muito mais completo da igreja de Corinto.

Ele lembra aos coríntios que poucos deles eram considerados sábios por este mundo, e não muitos eram de origem nobre (1 Coríntios 1:28-29). Isso é evidência de que os crentes coríntios, em sua maioria, eram pessoas comuns das classes mais baixas, inclusive escravos. No entanto, havia um bom número de crentes formado por membros abastados da classe alta da sociedade coríntia. Por exemplo, Erasto era um liberto coríntio que obteve sucesso nos negócios. Ele foi eleito tesoureiro da cidade e administrador de obras públicas (Romanos 16:23). Curiosamente, em 1929dC., os arqueólogos descobriram uma inscrição no Mercado Norte, perto do teatro de Corinto, que diz: “Erasto, como contrapartida de sua magistratura de edil, custeou as despesas desta pavimentação. Diversos membros da igreja, como Crispo, Estéfanas, Gaio e Cloe, eram ricos a ponto de possuírem casas nas quais podiam fazer as reuniões da igreja (1 Coríntios 1:11). Febe, uma diaconisa da igreja vizinha de Cencreia, é chamada de benfeitora” ou “protetora” de Paulo, e foi ela quem levou a carta dele à igreja em Roma (Romanos 16:1-2). Outros membros da igreja de Corinto citados são: Fortunato e Acaico (1 Coríntios 16:17), Quarto (Romanos 16:23), Tércio (Romanos 16:22), Sóstenes (Atos 18:17; 1 Coríntios 1:1) e, possivelmente, Lúcio, Jasom e Sosípatro (Romanos 16:21).

Perto do fim do período de um ano e meio que Paulo passou em Corinto, os judeus da sinagoga tentaram detê-lo acusando-o perante Gálio, governador (procônsul) da Acaia (Atos 18:12). Uma antiga inscrição descoberta em Delfos, na Grécia, menciona que Gálio foi procônsul da Acaia durante o reinado de Cláudio, em 52dC. Gálio teria tomado posse nessa função em julho de 51dC., o que situa a apresentação paulina logo depois que Gálio assumiu o cargo de procônsul. Os oponentes de Paulo trouxeram-no ao fórum para se apresentar perante o tribunal na bema, uma plataforma elevada com um teto sustentado por colunas, onde Gálio se sentava para ouvir os casos e proferir veriditos judiciais.

O judaísmo ganhou o status de religião legal (religio licita) dentro do Império Romano, o que significava que os judeus, por lei, tinham o direito de praticar sua religião ancestral. Como Paulo era judeu e estava pregando sobre o Messias judeu, é provável que seus oponentes estivessem tentando caracterizar seu ensino como algo totalmente à parte do judaísmo e, portanto, uma religião que não era legal. Eles disseram: “Este homem... está persuadindo pessoas a adorarem a Deus de maneira contrária à lei”. Atos 18:13. Gálio ficou aborrecido por precisar julgar algo tão trivial como discussões teológicas judaicas internas e deixou que percebessem sua irritação, recusando-se a permitir que o caso prosseguisse e expulsando-os do tribunal (Atos 18:14-16). Pouco antes de partir, os oponentes de Paulo descarregaram sua raiva espancando Sóstenes, o próprio chefe da sinagoga, que havia se tornado cristão recentemente. os judeus espancam Sóstenes, (outro principal da sinagoga), em frente ao procônsul, mas não tocaram as mãos em Paulo, e a autoridade Gálio os expulsou ali do tribunal, se é causa de credo religioso resolvam entre vocês.

Esse Gálio era irmão de Sêneca – um célebre filósofo estóico do Império Romano. Os romanos consideravam-no um dos governantes mais nobres e distintos de então, intitulando-o Dulcis Gallio, ou seja – Amado Gálio. O próprio Sêneca dizia: “Todo mundo ama a Gálio, mas ninguém o ama tanto como merece”. Embora Gálio fosse amado e aclamado, ele sabia o que era da alçada dele, e o que competia a ele fazer e se negou a julgar qualquer pessoa acusada de crime somente por causa da sua crença religiosa.

 

Visto que estava livre para continuar seu ministério em Corinto sem temer uma represália legal, Paulo permaneceu lá por “muitos dias mais” (Atos 18:18). A maneira de Lucas se expressar aqui é ambígua e pode significar um período que vai de algumas semanas até seis meses. Se a apresentação de Paulo perante Gálio ocorreu no verão de 51dC., então ele teria deixado Corinto antes do final de outubro do ano 51dC. ou depois do início de março de 52dC., pois a navegação parava durante os meses de inverno. Depois de vários meses em Corinto, Paulo finalmente se despediu dos irmãos e das irmãs de lá e foi para o porto de Cencreia, que ficava há 13km, onde raspou a cabeça por causa de um voto que fizera (Atos 18:18). Não fica claro qual foi esse voto ou por que ele o fez, mais isso demonstra que Paulo ainda vivia como um judeu devoto que seguia os costumes judaicos.

Em Cencreia, Paulo, Silas e Timóteo, junto com Priscila e Áquila, embarcaram em um navio cujo destino era o leste, de volta a Antioquia da Síria. Aportaram brevemente em Éfeso, na costa de Ásia Menor. Paulo quisera visitar Éfeso no início de sua viagem missionária, mas foi impedido de ir para lá pelo Espírito Santo (Atos 16:6). Os companheiros ficaram em Éfeso por tempo suficiente para Paulo visitar a sinagoga no sábado e debater com os judeus (Atos 18:19).

Apesar do convite dos membros da sinagoga para que ficasse mais tempo, Paulo estava ansioso para voltar para casa. Ele deixou Áquila e Priscila em Éfeso e, ao embarcar novamente em um navio, prometeu voltar “se fosse da vontade de Deus”. De Éfeso, Paulo viajou para Cesareia, onde fez uma rápida visita à igreja em Jerusalém antes de voltar para casa, em Antioquia da Síria. (Atos 18:22).

O tempo que Paulo passou em Corinto foi um marco em seu ministério. Durante dezoito meses, fez contatos e amigos que desempenharam um papel importante em seu ministério nos anos seguintes. Ele visitou a cidade três vezes ao longo dos anos. Seu relacionamento acidentado, mas profundamente carinhoso, com a igreja de Corinto o levou a lhes escrever quatro ou cinco cartas, duas das quais foram preservadas no Novo Testamento como 1 e 2 Coríntios. De muitas maneiras, o relacionamento de Paulo com os coríntios moldou o contorno do restante de suas viagens missionárias.

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